Jano, o abre-caminhos, e a importância do autocuidado

Janus

A comemoração de ano novo como nós conhecemos aqui no Brasil em 2018 deriva de um decreto do imperador Julio Cesar lá de 46 a.C. Ele decretou, então, que 1o de janeiro era dia de ano novo porque esse era o dia do deus Janus. Acho que Jano é o único deus romano que eu conheço que não tem equivalência grega (mas quem sou eu, né) e era um dos mais importantes, na época.

Jano era considerado o deus dos começos e dos finais, da passagem do tempo e das passagens, portas e portões.

A representação de Janus tinha dois lados de rosto, ou seja, ele não tinha nuca e tava sempre de olho 👁. Às vezes um dos rostos era jovem e o outro não, mas nem sempre.

Como esse era um conhecimento muito antigo na minha cabeça (nem lembro onde li) quando comecei a escrever fui confirmar na Wikipedia e lá descobri que Jano não tinha um sacerdote só dele, o próprio Rex Sacrorum (em português o Senhor das coisas sagradas, o famoso chefe da porra toda) celebrava seus rituais. Mais que isso, Janus era invocado no começo de todas as cerimônias, não importando qual divindade elas honrassem, porque era uma divindade de inícios.

(Vocês não acham fenomenal conhecer divindades que se assemelhem? Eu tomo isso quase como comprovação científica do sagrado, admito. Hahahaha.)

Eu boto fé que dia 1o de janeiro de 2019, dia de Jano, dia de ano novo, dia da posse do futuro presidente brasileiro, será um dia sufocante pra muita gente que está lidando com processos internos complicados diante deste futuro.

Pra mim, mesmo, essa campanha foi pesada, admito. Acho que boa parte teve relação com o negacionismo da ditadura, mas não só. Durante meses só conseguia pensar no America, poema do Ginsberg, de tal forma que, feito terapia, fiz uma paródia por dia durante mais de um mês. Foi doido mas foi o jeito que encontrei de lidar:

Sei o quanto é rude cobrar 
Dividas afetivas
Mas o que eu deveria fazer com isso, Brasil?
Bolsonaro, 2 pila e uns trocados
Primeiro de janeiro de 2019
Estou tão exausta e preocupada
Tudo que quero é não pensar no assunto

A verdade, entretanto, é que depois que ele confirmou as previsões e ganhou fiquei mais calma. Não porque as coisas tenham sido diferentes do esperado, até agora, mais porque quando a realidade se solidifica podemos começar a processar ela. Eu fiquei procurando feito uma doida um texto (que acho que é do Eco) sobre como os livros e seus finais fixos e suas histórias que não controlamos nos ensinam a lidar com morte. E foi isso que aconteceu comigo.

A vida, então, é isso. A realidade, então, será essa. E, no meio disto tudo, eu sou quem sou. Se tivesse como deixar de ser quem sou, já teria feito isto. E agora vamos adiante.

Claro que às vezes ainda sufoco, especialmente pensando nas pessoas mais vulneráveis que eu. Sou gente e não sou alheia, mas viver em sufocamento não muda nada, esta a verdade.

Esse ano vi um seriado muito bom da HBO chamado Treme (que inspirou as músicas da newsletter). O seriado começa na New Orleans logo depois do Katrina e ele me lembrou que as coisas se assentam. Com ou sem a gente a vida dá seu jeito e o fluxo segue. E isso me acalma. Então voltei a dormir, ir na academia e viver minha vidinha cotidiana que é a base de quem eu sou no mundo, afinal.

Grazadeus.

Por isso também acho que a sensação quase arrogante que muitas vezes temos, de que é nossa obrigação carregar as coisas nos ombros, é uma sensação pra qual devemos olhar melhor e com mais cuidado.

Como eu vejo acreditamos que é assim que se luta “pelas coisas”, que “as coisas” pelas quais lutamos não somos nós e por isto tudo precisamos nos sacrificar abnegadamente por elas.

Daí, também, que tanta gente não saiba lidar com o fato de as minorias terem começado a falar: as minorias são as próprias “coisas” pelas quais lutam e, como tal, elas sabem que cuidar de si mesmo é cuidar desse futuro que desejam. Saber se preservar é preservar possibilidades de mudança, buscar a felicidade é viver mudança, sobreviver é mudança, etc.

Meses atrás postei no Twitter uma coletânea de frases sobre autocuidado e só depois me dei conta que todas eram de mulheres feministas negras (além das feministas negras o ativismo queer também fala de autocuidado, pelo que eu conheço). E fiquei pensando ainda mais sobre a necessidade de reconfigurar essa ideia de que ativismo, resistência e luta se misturam com martírio. Ainda que muitas de nós estejamos dispostas a morrer por nossas ideias e que isto ainda continue acontecendo muito, esta não é a totalidade da luta das mulheres pelo mundo (e nem a parte mais relevante, se me perguntam).

Claro que o jeito e as coisas que eu penso sempre vem embebidos do meu mundo, com suas particularidades (e é exatamente por ele ser este lugar injusto que saber cuidar de si, se preservar, adquire valor de luta e resistência).

Disse a Audre Lorde: “Cuidar de mim mesma não é indulgência, é autopreservação e é um ato de guerra pessoal” (brigada, Marcie por esta tradução). Disse a Angela Davis: “Cuidar de si mesma tem que ser incorporado em nossos esforços. Isso é algo novo, algo que eu aprendi com as gerações mais novas. Eu tive que aprender com os mais jovens que é igualmente importante cuidar de si – e fazer isto em um contexto coletivo. Então, sim, isso quer dizer exercitar o corpo. Isso significa, também, encontrar um lugar de expressão espiritual. Esta forma holística de organizar as coisas é o que, eu acredito, nos fará ir adiante e nos levará a ter algumas vitórias.” Disse a Maya Angelou: “Minha missão nessa vida não é só sobreviver, mas prosperar. E fazer isso com alguma paixão, alguma compaixão, algum humor e algum estilo.”

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Por fim, tem um texto mais recente da Laurie Penny que diz: “O trabalho mais difícil e mais maçante no que diz respeito ao autocuidado é o cotidiano, o esforço impossível de levantar e seguir com sua vida em um mundo que prefere que tu fique intimidado e dócil. Um mundo cuja lógica abusiva quer que tu não veja problemas estruturais, somente problemas contigo ou com aqueles mais marginalizados e vulneráveis que tu. Amor verdadeiro, do tipo que tranquiliza e dura, não é um sentimento mas um verbo, uma ação. É sobre aquilo que tu faz pelas outras pessoas ao longo dos dias e semanas e anos, o trabalho investido em cuidado e catexia. É este tipo de amor que somos terríveis em dar para nós mesmos, especialmente na esquerda.”

Acho que me prolonguei e vou acabando por aqui, mas o que eu queria dizer com tudo isto é que quando chegar o dia de Janus anunciando um ano novo e esse novo ciclo político será útil para nós se conseguirmos olhar para o ativismo apartidário, o ativismo que não visa ganhar uma eleição mas reformular o mundo.

Esse ativismo nos ensina que as “coisas” que queremos mudar podem nos dizer respeito diretamente sem diminuir nem o valor delas nem o nosso, mas a mudança não é uma promessa breve, não vai chegar amanhã ou depois. Nem é uma promessa milagrosa de político tentando ganhar a eleição: ela não se encerra em si. Por isso é importante pensar a longo prazo, estrategicamente e com esperança. Mas sem desespero.

Como disse o Cornel West: “A esperança não é o mesmo que o otimismo, a esperança vai na contra-mão, a esperança é participativa. O otimismo analisa as evidências para compreender se é possível inferir que podemos realizar x ou y. A esperança diz ‘Fodasse, vou fazer igual’”

Também: quem estiver precisando mais sanidade é legal lembrar que ler menos notícias diminui a ansiedade de modo geral (tem estudos, não sou eu que tou dizendo, juro).

Bora lembrar que Janus é o deus dos começos mas também das passagens e adiante.

M.

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