Alegria, Carnaval e movimento

Estou lendo a biografia de São Francisco que o Nasi (que tem um gosto que eu considero top) recomendou. Eu não sei muita coisa sobre São Francisco para além deste estereótipo riponga que temos e, portanto, não fazia ideia do que é “alegria perfeita”, um ensinamento dele. Claro, aqui convém entender que ele era um homem religioso e esta é uma história de homem religioso, mas segundo se sabe a alegria perfeita estaria em não se abater com as dificuldades da vida porque “acima de todas as graças e de todos os dons do Espírito Santo está o dom de conseguir vencer-se a si mesmo e, de boa vontade, suportar todas as injúrias e desprezos”.

A ideia de superação parece estar presente na maioria dos relatos religiosos que eu já tive contato, mas é mais raro ela vir associada com alegria.

São Francisco antes da conversão (que é mais ou menos onde estou no livro) era um guri faceiro que prezava uma boa festa. E agora o que está me movendo adiante na leitura é conhecer e entender a história de um cara que entre o jovem mundano e o religioso disruptivo não achou necessário abrir mão da sua “alegria”.

Mas todo este processo de pensar sobre alegria me fez notar que tenho uma ideia bastante pagã do que ela seja (o que não é nem totalmente inusitado e certamente se relaciona com a contrição católica e todas as pregações de humildade, etc e tal).

Porque a alegria não é quieta nem discreta. Quero dizer, a alegria é um evento. E como evento não é algo que conseguiríamos sustentar com constância sem um belo nível de santidade nas costas. Mas mesmo a alegria de São Francisco é um evento divino capaz de nos lembrar que os males são transitórios. Mais ou menos como disse o Luiz Antonio Simas sobre uma outra alegria, em teoria mais mundana:

“Meus avós tiveram a sabedoria de me ensinar o seguinte: a gente não faz festa porque a vida é fácil. A gente faz festa exatamente pela razão contrária. A cultura do samba veio desse aparente paradoxo. Não se samba porque a vida é mole. Se samba porque a vida é dura. O sentido das celebrações, ao menos para mim, é esse.”

A alegria está posta na vida como forma de sobrevivência, portanto. Porque todos precisam de respiros ou porque esquecemos com frequência que, assim como a alegria, mesmo a dor mais terrível é transitória. Também tem aqui um pouco da nossa herança católica (não franciscana – rs) de que a vida correta é a vida abnegada. O doido é que abnegação seria um negar-se em nome do divino e isto, pelo menos no meu imaginário, tem muita relação com se tornar alguém mais ‘sóbrio’. E compreender a ‘profundidade’ como algo oposto à alegria está longe de ser uma coisa que só acontece no âmbito religioso. Estes dias tava relendo o delicioso Regresso a Tipasa (aqui em inglês) do Camus e em dado momento ele fala que na busca de justiça muitas vezes esgotamos o próprio amor que é a fonte desta busca.

Por isto também tem algo de transgressor em conseguir manter/ter algumas coisas como alegria. Ainda o Simas:

“O fato é que a ideia de felicidade, esta sim, sempre me pareceu meio conformista. A ideia de alegria, ao contrário, me parece tremendamente subversiva e ligada, como contraponto desafiador, aos perrengues e sacanagens da vida e da sua mais puta companheira, a morte. Desde que o samba é samba é assim.”

Eu não sou estudiosa e sei bem pouco sobre o Carnaval, infelizmente, mas sei que não convém se iludir nem acreditar em trololó porque ele nunca teve nada de ameno. Não à toa estes novos evangelizadores deste novo evangelho colocam tanto esforço em criar uma cruzada contra ele, ao mesmo tempo que os playboyzinhos moralizadores paulistanos aplaudem bombas de gás em foliões: é extremamente transgressor manifestar a alegria e a história desta festa. E não só (isso não é pouco) porque politicamente estamos em uma guerra que espera que nos fechemos em luto e tristeza mas, também e especialmente, porque o carnaval de rua é uma representação muito ativa da subjetividade e subjetividade deveria ser artigo de luxo, de alta cultura.

Quero dizer, um bom bloco de Carnaval nos lembra que por mais que a gente aperte o cinto ainda sobra espaço pro sopro vital. E o que ninguém quer lembrar mas o carnaval de rua esfrega na nossa cara é que gente pobre tem subjetividade, sim. Como resumiu (nesta matéria muito boa) o Philippe Valentim, coordenador do Bloco APAfunk:

“O Carnaval é um espaço político, porém não como um espaço de política partidária, mas sim como um local de mobilização popular para se discutir determinadas pautas. É uma resistência ao cotidiano. O folião resiste socialmente, economicamente e culturalmente.”

Sabe aquela coisa de que “pobre não fica deprimido” que cansamos de ouvir vindo, inclusive, de gente pobre? Isto, mais que generalizar, é robotizar, transformar pessoa em objeto. Como se dinheiro fosse, mesmo, definidor de tudo que somos. E o maior problema disso tudo, no Brasil, é que por mais que estes textos emplaquem no ano inteiro, uma hora chega fevereiro e em fevereiro tem Carnaval (este ano em março, no caso). No Carnaval não dá pra fechar os olhos pro que preferimos não ver porque a transgressora alegria nos lembra que subjetividade não é artigo de luxo e não tá só nos livros antigos ou nos corações de herdeiros.

Agora imagina este Carnaval aberto esfregando na cara a universalidade da subjetividade e da alegria pagã num país que está em pleno processo de dasluização (ato de tornar-se Daslu: cafona e inacessível).

Mais: eu, pessoalmente, acredito que o Carnaval não é só um respiro da vida e seus sofrimentos, é um lembrete, mesmo, de quem somos. Porque se no colégio aprendi que o brasileiro é um ‘povo pacífico’ que nunca se rebela (e ainda hoje tem políticos tentando nos fazer crer que ícones como Chico Mendes são irrelevantes), com o samba aprendi que não é bem assim. Além de ser por muito tempo e literalmente a voz da história que estava fora da história, o samba (como a cultura popular de forma geral) também e ainda é o narrador de quem está fora da narrativa.

Então é óbvio que o governador (o prefeito, o presidente, o Ministro, quem for) não vai gostar quando o samba sai pra rua e fala com os seus, todos nós, sobre nossos dramas e lutas, quem somos e quase sempre quase esquecemos. Realmente boto fé que enquanto a política tenta nos dizer quem devemos ser, o Carnaval e o samba nos lembram quem realmente somos.

Para além da volúpia, da mão na bunda, da catuaba, nós somos pessoas complexas que ouvem música de ritmo festivo e letra triste – isso além dos outros menos 20 jeitos diferentes de pular carnaval que nem sempre envolvem samba. Além disto, como povo, ainda sobrevivemos políticas excludentes e lutamos contra suas mãozinhas pobreza, misoginia, racismo, etc. Ainda sobre o brasileiro e o carnaval, temos poetas fodidos como Cartola e Nelson Cavaquinho no contexto da música popular e também temos uma das escolas de Samba mais tradicionais fazendo seu samba-enredo deste ano sobre um assassinato político conectado até com filho de presidente.

Nós somos a tradição negra violentamente excluída e calada (no samba na capoeira nas religiões afro no funk etc) e capaz de resistir com força e beleza.

Por isso também sou frontalmente contrária ao trololó classe média de que “quem não está com medo não entendeu” (que agora se refere a este governo mas já se referiu a diversas outras coisas). Eu não boto fé que medo tenha muito de construtivo em si. Quero dizer, o discurso político vigente que nos quer encolhidos de medo é o mesmo discurso da violência de Estado que nos quer socialmente calados pelo medo e dos relacionamentos afetivos abusivos que nos querem contentados pelo medo, também.

Além disto, o oposto do medo não é a burrice e estas não são as duas únicas opções da vida.

Eu, pessoalmente, optei por outras coisas. Por exemplo: acreditar em movimento, desejo de mudança e até em alegria. E acreditar que alegria, pagã ou não, pode ser um ritual dos mais foda. Às vezes optei por acreditar em ódio, também (às vezes nosso ódio é o melhor da gente, né). Mas em medo quase nunca. Ah, e em Carnaval sempre. Boto fé demais no Carnaval.

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