Autovalor como resistência: Um manifesto pros cidadãos e cidadãs de mal

Acho que essa é a newsletter que mais tive dificuldades em escrever e esse foi um dos motivos que me fez atrasar quase um mês da data prevista (que era 15 de junho).

A verdade é que eu escolhi um tema muito difícil, mesmo. Difícil porque quando pensamos em autoestima vem a definição do dicionário (nesse caso cito o dicionário do Google, mesmo):

autoestima (subst. f.)  é a “qualidade de quem se valoriza, se contenta com seu modo de ser e demonstra, consequentemente, confiança em seus atos e julgamentos.”

Mas as coisas não são tão simples, né. A filósofa Ann Ferguson fala do aspecto mais básico do impedimento da autoestima para as mulheres como:

o truísmo que a noção de autovalor das mulheres e, por consequência, nosso poder pessoal, foram enfraquecidos por uma sociedade dominada pelo masculino.

Ou seja, a autoestima não existe em detrimento do mundo no qual estamos inseridas. E quando se quer falar de autoestima feminina como um senso autovalor sem tratar de beleza a gente esbarra em um mundo de questões. A primeira é que, de fato, autoestima feminina virou sinônimo de aparência e, como tal, de uma disputa que tem seu valor mas normalmente acaba virando uma coisa meio desprovida de outros contextos políticos que ficam aparentes nessa frase da Ann Ferguson.

Basta notar o processo como as questões femininas são absorvidas pela sociedade de consumo. Quero dizer, a maior parte dos ativismos acaba sendo digerido pela sociedade de consumo de uma maneira facilitada (ou seja, desprovida de seu caráter revolucionário) e virando um produto que se vende (pelo menos em parte) como uma concretização daquele desejo de mudança que o ativismo propunha. Uma concretização acessível, por 2,99 tu tem sensação transitória de “poder” e “valor” sem precisar de nenhuma mudança real estrutural para que isso aconteça.

Uma das minhas maiores dificuldades, sendo mulher, com a beleza (a busca e a demanda) sempre foi sentir que ela me reduzia. Meus amigos homens podiam ser muitas coisas, eu só podia ser algumas coisas e só se fosse bonita. Isso também está na frase da Ann Ferguson, claro. Porque ter seu poder pessoal “enfraquecido por uma sociedade dominada pelo masculino” não é só não conseguir se sentir bonita por estar fora dos padrões. É a própria obrigação de colocar a beleza como papel central, a obrigação de se sentir bonita (ou pelo menos tentar), a obrigação da beleza.

Então nessa newsletter sobre autoestima e poder pessoal eu reconheço a relevância dos debates sobre beleza (já tentei falar disso antes, inclusive) para as mulheres mas queria propor um exercício: que a gente pense na nossa subjetividade de maneira mais ampla, para além da aparência.

E talvez isso tudo seja mais fácil de perceber quando notamos que não são só as mulheres que tem seu senso de autovalor e de poder enfraquecidos. A Bell books na introdução do livro Rock My Soul (indicação da Stephie Borges) traz uma quase história da autoestima negra norte americana e, em um resumo, fala dos processos de criação de autoestima em um mundo que contradiz isso, quero dizer, pra não se odiar não basta repetir na frente do espelho “eu sou linda eu sou foda” se quando tu sai na rua ou liga a TV um discurso potente de ódio permeia teus dias.

“O capitalismo e as forças do mercado receberam os negros no mundo do consumo hedonista. Mais que pesar a mente e o coração com justiça social, luta antirracista, liberação das mulheres, condição dos pobres ou o fracasso dos princípios democráticos, os negros eram incentivados ao consumo como uma forma de definir sucesso e bem estar.”

Ou seja, esse processo talvez se repita em quase toda militância: primeiro como confronto, então resistência, então nicho de consumo e assimilação/ neutralização. O bem estar que é vendido junto com o carro do ano, o corpo do ano, os dentes do momento tentam suplantar a questões legítimas que fizeram surgir esse movimento dando em troca uma falsa sensação de pertencimento e auto poder. E exatamente porque poder e autovalor em contexto social se relacionam com sensação de pertencimento que é fácil vender ele por ícones de consumo. Nós crescemos acreditando que pertencer é costurado por ter.

Não sei se vocês lembram disso mas em 2011 rolaram uma série de ritos (tumultos com saques) em Londres e isso gerou um debate bem interessante porque não foram manifestações vindas de pessoas miseráveis querendo comida (as pessoas saqueavam, por exemplo, lojas de eletrônicos) mas ainda assim vinham de consumidores desprovidos. Ao menos foi o que o Bauman colocou:

“Esses não são tumultos gerados por fome ou pão. Esses são tumultos de consumidores desqualificados e defeituosos […] Agora somos todos consumidores, consumidores acima de tudo, consumidores por direito e dever. No dia que se seguiu ao ultraje do 11 de setembro George W. Bush, quando convocando os americanos para superar o trauma e voltar para a normalidade não encontrou palavras melhores que “voltem a comprar.”É o nível do nosso consumo e a facilidade com que nos livramos de um objeto para substituí-lo por uma versão “nova e melhorada” dele que serve como medida principal da nossa posição social e da nossa pontuação na competição de sucesso na vida. Para todas as dificuldades que encontramos no caminho que nos distancia dos problemas e nos aproxima da satisfação, procuramos soluções em lojas.”

O Zizek inclusive respondeu esse texto do Bauman com um texto dele dizendo que o que tornava esse movimento questionável não era a violência, em si, mas a falta de afirmação de diretos nessa violência, que se apresentava apenas como uma máscara para consumidores ressentidos por não poderem consumir.

Dito tudo isso, eis minha dificuldade em escrever essa newsletter de hoje: tentar pensar autovalor e poder pessoal de formas que não sejam diretamente associadas com consumo nem enaltecimento de coisas que se tornaram códigos de consumo em nosso modelo de sociedade, como aparência física.

E eu parti dessa ideia achando que ela era uma característica circunstancial que se aplicava especialmente às mulheres, só que daí me dei conta que não só. É o mesmo processo de pensar criticamente em, por exemplo, funk ostentação. A ostentação tá em busca de recriar uma dignidade primordial que foi subtraída mas parece poder ser emulada pelo sucesso como consumidoras/es. Portanto, esse é um processo dos que estão na margem, ou seja, dos que tiveram (como disse a Ann Ferguson) seu autovalor e, por consequência, poder pessoal enfraquecidos por uma sociedade que além de masculina é branca e de consumo.

Como disse de uma maneira muito contundente o Viveiros de Castro:

“O pobre é antes de mais nada alguém de quem se tirou alguma coisa. Para transformar o índio em pobre, o primeiro passo é transformar o Munduruku em índio, depois em índio administrado, depois em índio assistido, depois em índio sem terra”

É uma sociedade que tem por base, em muitos sentidos, privar algumas pessoas de seu autovalor por não reconhecer que ele sequer exista. Não é de se admirar, portante, que algumas vezes esses mesmos excluídos tentem emular valor usando os mesmos códigos dessa exclusão.

Ou, como disse Don L numa música que inclusive já citei antes:

“Tem dias que eu acho tudo inútil
Nossa melhor versão é puro ego, fútil
Uma luta contra o mundo
Pra fazer parte do mundo que cê luta contra”

Por isso que para se chegar nesse lugar de autovalor que não encontra uma solução rápida e temporária no consumo é muitas vezes necessário pensar em: consumo. Por mais que a gente esteja disposto a questionar, a sociedade de consumo ainda delimita o quanto somos cidadãos. É claro que isso não quer dizer que um índio, por exemplo, com poder de consumo estará imediatamente inserido nessa sociedade, porque ela tem outras características excludentes como parti no pensamento inicial e falei ali em cima (branca, masculina, etc). É por isso, também, que um indígena só poderia se inserir nessa sociedade se abrisse mão de quem ele é, aka, do que torna ele um desvio. A história, a cultura, a família. Seria esse indígena urbano que os neo conservas adoram enaltecer (e o que Zizek chamou de o outro sem o outro).

Explico isso tudo com uma historinha mais trivial e também porque associo muito o rap com essa ideia de usar o autovalor como resistência, porque foi assim na minha vida:

Uns anos atrás o Snoop Dogg ganhou um prêmio e agradeceu a si mesmo. O que resultou disso foi uma avalanche de piadas porque agradecer a si mesmo, as pessoas diziam, era ridiculamente autocentrado e egocêntrico.

(a situação toda me deixou com tanta raiva que nem comentei no dia, mas porque nasci sob o signo de escorpião e tenho dificuldades em superar rancores estou aqui escrevendo sobre ela nessa newsletter. Hahahaha)

Para mim quem percebe essa autoestima (que coloca a si mesmo como referência) como uma coisa ridícula é quem está num lugar de espelho dessa sociedade, não de desvio. Não é de se admirar que quem está nesse lugar simplesmente não compreenda como funcionam outras formas de tocar e ser tocado pelo mundo. O eterno narrador na primeira pessoa do singular ignora que sequer exista um narrador possível na primeira pessoa do plural. Daí ele acreditar que todos tem o mesmo processo de autovalor, a mesma recepção do mundo, que veja isso como algo nato: ora quem se esforça e dá o seu melhor ganha prêmios, é só continuar tentando, não vá desistir.

Ele desconhece a privação desse poder pessoal mais básico, e esse eterno exercício solitário de resistência, criatividade e perseverança. Em certo sentido é como disse o Emicida no seu maior hit:

“Eu sei, cansa
Quem morre ao fim do mês
Nossa grana ou nossa esperança”

Então o que fazer?

Meu sobrenome pode enganar mas a verdade é que não faço ideia, não tenho resposta pra nada. Hahahahaha. Mas tenho propostas!

Minha primeira proposta é voltar o olhar crítico que dirigimos para essas estruturas excludentes também pra nós mesmos. Questionar onde os padrões que não nos afetam entram no nosso discurso e perpetuam uma nova proposta que, em ultima instancia, seria a mesma coisa só mudando o cenário. É um ponto de partida importante porque, enfim, ninguém sai ileso de viver cercado de licho (sic). Por exemplo, questionar a ideia de consumo como formador de quem nós somos e de quem vemos no outro. Questionar a beleza feminina, a força masculina, questionar o quanto estamos questionando também o que nos afeta e não só o que nos facilita (tipo aqueles caras que acham que feminismo é liberação sexual e só mas demandam ser vistos como personagens complexos).

E indo um pouco além, também acho que deveríamos questionar onde nossas respostas reafirmam coisas contra as quais lutamos. Tenho pensado muito nisso. Muito mesmo. A gente tá vivendo um momento político mundial que defende a retomada e normalização de uma série de coisas, entre elas misoginia, racismo, LGBTfobia e demais escrotices. Por isso muitos de nós que são desviantes dessa norma de “cidadão de bem” estamos vivendo em um constante estado de sobressalto, fazendo defesas instintivas muitas vezes impensadas porque sentimos a necessidade de nos reafirmar como cidadãos em uma circunstância de mundo que quer nos dizer, a todo custo, o oposto disso. Claro.

Meu exemplo mais recorrente disso é de quando o atual presidente fez um contraponto entre a noção de família e ser LGBTs. Então muitos de nós, claro, nos apressamos em dizer: “pera lá otário.” Porque é óbvio, a fala estava basicamente reafirmando a crença dele de que alguns são mais cidadãos que outros e então corremos para dizer que gays também tem família e, portanto, também são cidadãos. Mas nesse processo sequer notamos que ele estava, na verdade, delimitando um novo corte sobre o que é ser uma pessoa “que importa.” E o mais inaceitável, eu acredito, é essa divisão que nós acabamos acatando sem notar, mesmo quando acreditamos que não deveriam existir esses códigos de “mais ou menos gente”.

Ou seja, tentamos nos mimetizar com esse gente e fazer isso, nós sabemos onde vai dar. Portanto, por fim, minha proposta é que sejamos cada dia mais orgulhosos do que nos faz destoar, do que nos torna desvios.

Existindo assim não estamos apenas negando essas réguas de medida ridículas, também estamos confrontando e criando lastro para que outros notem que desvio é legal e façam o mesmo. Ou seja, se a gente parar de tentar mudar o espelho (e de tentar se sentir inserido, portanto) e passar a celebrar o que esse espelho nos diz sobre nosso reflexo ser errado, defeituoso, desviante vamos afrontar de maneira mais direta esse controle discursivo e cultural.

Começo por mim: Eu sou Mari e tenho orgulho bagarai de ser uma mulher de (quase) 40 anos que é avulsa e não quer fazer parte nem aceita mixaria. Tanto no pessoal quanto no político.

Como disse o Camus:

“Eu me revolto, logo existimos.”

Ou, como disse o Djonga:

“Não é pela grana que eu tô me gabando
Tiro onda porque mudo paradigmas
Meu melhor verso só serve se mudar vidas
Pois construí um castelo vindo dos destroços
Resumindo: Eu tiro onda porque eu posso”

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