Mulheres Mortas como metáfora da mulher ideal

Da realidade para a ficção: Narrativas de mortes femininas

Minha fixação em compreender porque personagens mortas tantas vezes foram eleitas como ícones de culto de mulheres que eu admirava começou, claro, com Twin Peaks. Durante minha adolescência era impensável e punido com o exílio de qualquer rodinha de amigos sequer questionar Laura Palmer como representante perfeita das mulheres fora da norma.

Ao longo dos anos fui notando com curiosidade que as mulheres mortas também eram uma fixação da sociedade e não paravam nos seriados, ou seja, incluía mulheres reais mortas.

Dentro de um universo que se assemelha ao de Laura Palmer, estas vítimas de assassinatos brutais são normalmente jovens, brancas e estão dentro dos padrões estéticos vigentes. Além disto, também como Laura Palmer, são capazes de despertar uma espécie de obsessão coletiva da qual muitas vezes derivam narrativas ficcionalizadas intrincadas sobre a vida que tiveram e quem foram.

Mas mesmo na ficção, seja ela inspirada ou não em fatos reais, as personagens mortas são um universo complexo e popular.

Por exemplo, o fato de que a grande maioria destas mulheres está totalmente dentro dos padrões com certeza não é uma coincidência. Para Alice Bolin, no recém lançado Dead Girls, se trata de uma maneira de lidar com os sentimentos complexos que temos em relação ao status privilegiado da mulher branca na nossa cultura, como uma espécie de sacrifício simbólico, esta narrativa de morte apaga (ou simbolicamente vinga o apagamento) as inúmeras mortes de pessoas que não são brancas, são pobres, feias, viciadas em drogas, trans, imigrantes, deficientes, etc.

Mas não atentar para o caráter misógino desses relatos seria, no mínimo, não compreender o contexto completo destas narrativas de morte na nossa sociedade.

O fato, por exemplo, de que a maior parte destas narrativas tem homens como autores, sejam eles escritores, jornalistas ou apenas “fãs” (afinal de contas as mulheres nunca podem ser suas próprias narradoras), explicita o caráter de objeto sexual que estas personagens mortas possuem.

Edgar Allan Poe, autor de alguns dos mais icônicos óbitos femininos na literatura, escreveu que a morte de uma bela mulher é inquestionavelmente o tópico mais poético do mundo. Para além do ideal romântico esta fala nos esclarece um pouco sobre a visão do autor de “Marie Rogêt”, conto inspirado na morte da jovem e bela Mary Rogers, em 1820.

Mas Poe está longe de ser o único a ver beleza na violência e morte femininas. David Lynch relata no biográfico “Room to Dream” que durante a infância ele e o irmão encontraram uma mulher profundamente ferida e nua andando pelas ruas de Boise, Idaho. Segundo ele: “A gente estava no fim dessa rua de noite e, do meio da escuridão – foi tão incrível – surgiu essa mulher branca nua. Talvez tenha sido a iluminação e a forma como ele surgiu da escuridão, mas pra mim parecia que sua pele tinha a cor do leite e que ela estava com a boca ensanguentada. Ela tava mal, não conseguia andar direito, e tava completamente nua… Talvez eu tenha perguntando, Tu tá bem? Tem algo errado? Mas ela não disse nada. Ela tava assustada e agredida, mas mesmo traumatizada ela era linda.”

A apresentação de uma mulher brutalizada em uma narrativa fetichizada não perdoa nem a memória desses homens. Diante desse relato é impossível, também, não se questionar se a frequente recriação e o aprofundamento deste trauma não trazem, para o autor, algum tipo de fruição. Afinal de contas, ao passar do mundo real para o mundo ficcional estas mulheres também perdem o controle da própria narrativa pregressa e se tornam criação e propriedade do seu novo narrador. E, mais ou menos como acontece com o Inspetor Cooper, é o mesmo processo que faz estas ‘mulheres’ (aqui aspas porque são mais a ideia destas mulheres que elas) se tornarem desejadas e inatingíveis para o autor.

É neste paradoxo intrincado de controle total e inviabilidade absoluta de possuir que parece se realizar o irrealizável: a mulher morta como ideal.

Para as mulheres, por outro lado, é provável que boa parte da atração esteja no fato de que estas jovens e belas mortas durante muito tempo estiveram entre as personagens femininas mais complexas da ficção: sua morte normalmente está diretamente relacionada com o fato de que, em vida, elas foram pessoas complexas e, como tal, deslocada dos padrões sociais de comportamento e, especialmente, desejo feminino.

O que, infelizmente, nem sempre notamos é que isso quer dizer duas coisas que não são nada diferentes do usual. A primeira é que sua morte normalmente está relacionada com o fato de serem “desviantes”, ou seja, ainda usa do recurso punitivo clássico das narrativas masculinas. E, por fim, estas narrativas, por mais complexas que sejam, não parecem dispostas a tirar a mulher do lugar ao qual “pertence”, o dos sentimentos e da sexualidade.

Ainda sobre este universo é importante notar que o fato de serem, tantas vezes, personagens centrais nas mesmas tramas em que estão mortas faz com que, independente de flashbacks ou “recursos místicos” (como apelidei os flashbacks complexos de Lynch) elas desempenhem um papel mais próximo ao cenário que ao de uma personagem.

Ou seja, estão no centro mas não estão, de fato. Fala-se delas, mas a questão real raramente são elas.

Não é de se admirar que, contemporaneamente, as mulheres tenham buscado formas de retomar esta narrativa. Uma das minhas favoritas é o sucesso da fantasia de Laura Palmer em sua mais icônica imagem de morte, que gerou uma avalanche de tutoriais de maquiagem online. Mas não é só na informalidade que as mulheres tem buscado assumir estas narrativas. Já citei o livro de Alice Bolin, Dead Girls, e relembro outro exemplo: Selva Almada, um dos grandes nomes da literatura argentina contemporânea, que anos atrás lançou o livro Garotas Mortas, onde investiga três casos de feminicídio. E elas estão longe de ser as únicas.

De toda forma, na busca por entender melhor a complexidade deste universo passei o ano de 2018 inteiro lendo e pensando sobre mulheres mortas de tal modo que minha busca frenética lembrava, ironicamente, a tentativa de solucionar a morte de Laura Palmer.

Parafraseando Sontag: A morte como metáfora

Nesse processo comecei a notar que a morte desempenhava um papel de metáfora ao próprio discurso de gênero vigente. O que me trouxe outra questão: talvez seja exatamente por isso que os relatos de morte “clássicos” sejam menos complexos e possibilitem uma compreensão com menos nuances.

Quero dizer, quando Leônidas coloca a guerra acima da família e sucumbe, com bravura, vítima de uma morte anunciada, ele está reafirmando e recontando o discurso clássico do seu gênero na própria morte. Ser homem, segundo a masculinidade, é nunca temer.

O mesmo, é claro, ocorre com personagens mulheres. A história de Ofélia, contada e recontada, é um retrato icônico da vulnerabilidade feminina. Segundo Andrew Gurr e Elaine Showalter a oposição de gênero é demarcada de algumas formas ao longo da peça, seja pelas roupas (a solenidade de cores escuras de Hamlet versus o branco virginal de Ofélia) ou pela manifestação da loucura (a melancolia intelectual dele versus a “loucura de amor” dela) mas é na própria cena da morte de Ofélia que o discurso feminino atinge seu ápice.

Na tradução de Millor ela aparece descrita “como uma sereia” (ou seja, atraente, bela) mas, “inconsciente da própria desgraça” (desprovida das qualidades de predadora da sereia, ela é ingênua). A cena mostra uma Ofelia que se eleva pela própria vulnerabilidade, expurgando através morte até alçar-se ao patamar da pureza.

Uma santa, mas uma santa linda.

Com o passar dos anos as narrativas de morte feminina se complexificam paralelamente à complexificação das narrativas de gênero, ou seja, as mulheres podem ser mais coisas, logo sua morte passa a englobar mais coisas.

Os Dead Girl Shows, como chama Alice Bolin, trazem de maneira mais explícita mas mais cheia de nuances esta dualidade entre inocência e a hipersexualidade que seria a representação do “ideal feminino” contemporâneo: “No Dead Girl Show o corpo da garota é tanto uma fonte quanto um alvo de perversidade sexual.”

Alice reforça a ideia dizendo que estas meninas selvagens e vulneráveis precisariam ser “protegidas da própria sexualidade”.

Ao contemplar a maneira ritualística e hipersexualizada como foi assassinada e exposta em sua morte, não é surpresa saber que a bela e jovem Elisabeth Short tenha despertado tanto interesse.

Em uma morte cercada de metáforas, a pessoa que encontrou seu corpo disse que, inicialmente, acreditou se tratar de uma boneca.

Apelidada por jornalistas, após a morte, de Dália Negra (em referência ao filme de sucesso na época Dália Azul) além do corpo cortado ao meio Elisabeth Short teve um sorriso “esculpido” em seu rosto com um objeto cortante.

Se a comparação do cadáver de Short com uma boneca pareceu desconfortavelmente irônica, é pouco dizer que esse sorriso mereceria um livro inteiro. Ora, existe coisa menos feminina que a seriedade?

Em vida, segundo relatos, Elisabeth foi uma mulher que não se encaixava no ideal de feminilidade. Após a morte de seu noivo, na guerra, ela se tornou uma espécie de trambiqueira que usava de sua beleza e astúcia para passar a perna em homens, mas não queria nada de mais profundo com eles.

Os relatos de sua morte já serviram de inspiração para filmes, livros e histórias em quadrinhos. E, em uma forma explícita de lidar com a dualidade do ideal feminino, na época sua morte também inspirou lendas urbanas como a de que possuía “genitais infantis”, impossibilitando a penetração em um possível estupro. Disto, relatam, teria decorrido sua morte.

Capaz de despertar um desejo quase insano, mas ainda assim morrendo pura.

Ou seja, além de aprisionada e ‘feminilizada’ pela morte que deixa seu corpo parecido ao de uma boneca, com a docilidade imposta pelo sorriso esculpido, Short também foi feminilizada pelo imaginário que inspirou.

A morte como libertação

Uma das imagens mais recorrentes no meu ano de 2018 foi a fotografia conhecida como “O mais belo suicídio”. Em uma cena que pouco lembra a morte, uma bela jovem parece repousar placidamente, preservada em sua beleza e vestida com cuidado mas sem exageros. Ela também segura a corrente no pescoço em um gesto de profunda devoção mas, dentro do contexto, igualmente casual.

(original e a versão do Warhol) 

Pouco se sabe sobre Evelyn McHale além do fato de ter 23 anos quando cometeu o suicídio pulando do deck de observação do Empire States Building. Em seu casaco, achado dobrado no deck do prédio, maquiagem, fotos e um bilhete: “eu não seria uma boa esposa para ninguém”.

À primeira vista talvez a imagem de McHale evoque retratos como a Ofélia de John Everett Millais em seu “repouso eterno” mas ao longo dos anos a fotografia desta morte serviu como fonte de inspiração para uma série de Andy Warhol, um vídeo de David Bowie, um de Taylor Swift e até para um ensaio de moda com Drew Barrymore e uma matéria com o ator Bryan Cranston.

Ao longo de 2018 muitas vezes me perguntei como o retrato de um suicídio se transformou em ícone de beleza, independência e liberdade.

Minha primeira pista foi notar que Evelyn McHale morreu no mesmo ano que Elisabeth Short, mas em contextos totalmente diferentes.

Foi pensando nisso que me dei conta que toda a compreensão do imaginário de mulheres mortas, ficcionais ou não, gira em torno de dois eixos essenciais: quem matou e quem narrou. No caso de McHale o primeiro eixo parece determinar o caráter do segundo, ou seja, o fato de ela mesma ter se matado certamente se relaciona com a forma como as narrativas derivaram essa morte.

Ou seja, eu acredito que a releitura frequente desta morte como um gesto extremo de tomar o destino em suas mãos muito provavelmente ocorre porque Evelyn era jovem, bela e estava prestes a casar mas optou por outro “caminho”. E, pensando na narrativa de gênero da época, isso se aproxima da ruptura com os ideais mais canônicos de feminilidade (“eu não seria uma boa esposa”) e passa a ser lido como coragem de se colocar no centro da própria vida/morte.

Isso explica as releituras relacionadas com coragem, mas por que tantos ensaios de moda e estilo?

Talvez essa fala da Susan Sontag seja o mais próximo que eu tenha chegado de ler uma explicação para isso: “Fotografar pessoas é violá-las, ao vê-las como elas nunca se veem, ao ter delas um conhecimento que elas nunca podem ter; transforma as pessoas em objetos que podem ser simbolicamente possuídos.” Porque as releituras que dialogam com estilo e moda tem muito mais relação com quem narrou a morte, ou seja, com a fotografia premiada do que com o imaginário da morte, em si.

Indo além, acredito que essa ideia de “objetos que podem ser simbolicamente possuídos” talvez seja o grande mote nos retratos de mulheres mortas, ficcionais ou não, suicidadas ou assassinadas. Seja na recriação da memória de David Lynch, nos genitais infantis de Elisabeth Short ou na figura impecável e liberta de Evelyn McHale a ideia de “objetos que podem ser simbolicamente possuídos” parece ser o norte destas narrativas.

Eu diria, mesmo, que as narrativas das mortes dessas mulheres não são sobre as vidas delas mas sobre ser mulher.

Portanto, claro, isto tudo só acontece porque McHale, Short, Mary Rogers, Laura Palmer e até Ophélia estavam dentro de padrões de beleza de suas épocas. As dead girls são, afinal, uma outra representação ideal de mulher, elas apenas estão mortas.

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