O que está por trás do termo “feminazi”

A popularização do termo em discussões na rede e no mundo real revela um impulso para calar a manifestação de mulheres tentando ser ouvidas

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A edição de 2012 do Oxford English Dictionary incluiu o termo “Lei de Godwin”, com a seguinte definição: “A teoria de que a progressão de uma discussão online torna inevitável que alguém ou alguma coisa seja eventualmente comparada com Adolf Hitler ou os nazistas, independentemente do tópico original”. Disto derivou-se um conhecimento tácito entre os internautas mais dedicados de que se referir ao nazismo e suas possíveis derivações é uma medida argumentativa desesperada, que deveria fazer o usuário de tal recurso automaticamente “perder” um debate.

Mas, assim como a maioria das leis do mundo off-line, também a legislação informal da internet nem sempre é capaz de garantir os direitos das minorias – e isso permitiu a popularização do termo “feminazi”.

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Descontextualizado, “feminazi” pode parecer só um termo bobo. Ninguém que tenha o mínimo de cognição, interesse ou conhecimento seria capaz de comparar duas linhas tão opostas de pensamento como o nazismo e o feminismo: uma defendendo a exclusão e a outra a inclusão. Para além disso, como ressaltam a jornalista Gloria Steinem e o recém publicado livro Se Isto é Uma Mulher, de Sarah Helm, o próprio nazismo se posicionou fortemente contra o feminismo, perseguindo ativistas e pensadoras, fechando clínicas de planejamento familiar e declarando o aborto um crime.

Ironicamente, o termo foi primeiro utilizado e popularizado nos anos 1990 pelo radialista conservador Rush Limbaugh exatamente para se referir a feministas que defendiam a interrupção da gravidez. A definição do termo dada pelo próprio pode parecer irônica, mas não é: “uma feminista para a qual a coisa mais importante da vida é garantir que seja realizado o maior número possível de abortos”.

A popularização do termo, porém, já extrapola os limites dos direitos reprodutivos e acompanha a popularização do próprio debate feminista, infestando todos os temas possíveis, seja em redes sociais, meios de comunicação ou eventos. Basta que uma mulher “ouse” sair do espaço de fala para ela “delimitado” para que seja submetida ao jugo do termo e, em decorrência, desacreditada e calada.

E a ideia é exatamente essa: não debater, mas silenciar.

Para quem não acompanha os debates feministas pode parecer exagero mas, nos últimos anos, nomes proeminentes da tecnologia, ciência e literatura (para citar alguns tópicos) tiveram exatamente essa postura em relação às mulheres, tanto no Brasil quanto no resto do mundo.

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O grande trunfo por trás de feminazi está em apontar a voz de uma minoria como uma voz raivosa, perigosa e descontrolada, criando distanciamento e reserva em relação ao que está sendo dito. Não importa que se tenha demandas totalmente válidas nem argumentos pertinentes, é importante destruir a possibilidade de diálogo antes mesmo que ele ocorra, evitando que algum desavisado possa ouvir o que está sendo dito e levar em consideração.

Ou seja, não adiantaria dizer para Rush Limbaugh, por exemplo, que as mulheres defendem o aborto com base em questões práticas de saúde pública, nem que, segundo a Pesquisa Nacional do Aborto, da UnB, uma em cada sete brasileiras entre 18 e 39 já realizou aborto, ou que a cada dois dias uma mulher morre no país em decorrência do aborto ilegal e que nosso vizinho Uruguai acabou com essas mortes ao legalizar o procedimento. Nada disso seria levado em consideração por ele, que já havia decidido de antemão encaixar sua interlocutora no estereótipo de mulher irracional, fria assassina de fetos e opressora de homens.

Por isso termos como feminazi dizem muito mais sobre quem os profere, já que a necessidade de silenciar e deslegitimar mulheres retratando-as como descontroladas e incapazes de entender suas próprias demandas não é exatamente nova e tem um nome bastante conhecido: machismo.

(Publicado originalmente em 19/09/2015 na Zero Hora)

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