Solidão (poeira leve)

Eu gosto muito de uma música brutal de linda do Gil que começa assim:

“Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz”

A solidão é o lugar do subjetivo e um dos meus lugares prediletos, onde vou pra fazer algumas das coisas que mais gosto na vida, tipo ler. Sempre fui adepta e defensora e só quando mudei de estado entendi que, assim como eu e tu, ela não era uma coisa só. E daí que, além de gostar, também passei a odiar a solidão.

Isto me fez pensar muito mais sobre solidão. Nos últimos anos o mundo todo parece que tá fazendo isto, inclusive.

Ano passado o Reino Unido criou o Ministério da Solidão, que parece nome de sketch do Monty Python mas foi uma necessidade surgida de uma série de problemas de saúde pública. Também os gringos americanos tem falado muito sobre isto: lá a solidão tem sido considerada uma epidemia. Na verdade, a solidão está sendo considerada uma epidemia muito perigosa em todo mundo desenvolvido.

Quem mais sofre com esta solidão epidêmica são os mais velhos: os amigos morrem, os filhos se afastam, a saúde piora e muitos ficam meses sem ver amigos e família. Mas não são os únicos e a solidão tem cada vez mais acometido todo mundo.

Admito que muito intuitivamente, nos primeiros anos que seguiram minha mudança, conclui que os ambientes urbanos são desenhados pra solidão, com seus conglomerados de espaços individuais e sua escassez de espaços coletivos. Em SP algumas coisas da vida urbana ficam ainda mais claras, talvez por ser esta cidade gigante que tem no dinheiro seu etos.

Eu moro na frente de uma praça que tá sempre cheia de gente e sei que isto é uma sorte, mesmo que às vezes pareça um inferno (mais de uma vez já fiz piada com amigos gaúchos dizendo que é o nosso centrinho de Capão). Praças (e árvores) em SP são luxo. Assim como momentos de laser. Lembro de pensar, quando mudei, que não seria destes otários que trabalham sem parar e quando tem uma folguinha enchem a cara pra conseguir lidar com a existência que tão levando. Isto, pra mim, era a imagem de SP. Claro que foi exatamente o que eu fiz nos primeiros 6 meses aqui.

Mas isto que SP tem de tornar as coisas mais claras funciona muito para entender a conversa de que a arquitetura tem um papel essencial na solidão contemporânea. Porque pensa bem, eu moro em uma cidade que tem quase 15 milhões de habitantes mas (e digo isto sem a menor pretensão de soar científica) nunca conheci ninguém mais solitário que o paulistano. Os meus amigos paulistanos normalmente tem uma solidão melancólica que é parte de quem são e é bem diferente da melancolia do gaúcho (e vou falar sobre isto melhor outro dia). Acho que o que eu quero dizer, mais ou menos, é que enquanto a solidão do gaúcho é do descampado, do pampa, a solidão do paulistano é do cimento.

A Suzanne Lennard, arquiteta do movimento internacional Making Cities Livable (um movimento para tornar as cidades mais “vivíveis”) diz que se “A ideia de construir cidades para criar solidão fosse deliberada, ela dificilmente seria mais bem sucedida.” E quando discorre ela fala sobre exatamente isto que eu disse ali em cima: ao longo dos anos fomos tornando as cidades mais funcionais (e em alguns casos mais padronizadas) e fomos deixando de lado componentes essenciais delas, como as praças e espaços de socialização que permitiam que as pessoas apenas trombassem umas com as outras sem fazer isto de maneira premeditada ou intermediada por consumo. E quando falei, ali em cima, que a primeira vez que pensei no papel da arquitetura na solidão foi intuitva, estava falando de uma vez que trabalhei em um prédio que só tinha um espaço de socialização: um bar.

Enfim, eu nem tenho capacidade de passar por todos os pontos que as pessoas estudam a respeito da solidão urbana (são muitos e são muito interessantes) mas acho que compreender isto também tem muito de intuitivo: lugares bonitos, vidas com espaço pro laser e espaços que propiciam interação não intermediada nos fazem mais felizes. Porque estamos vivos e todas as formas de vida gostam de de coisas boas (e humanos gostam de coisas bonitas).

Neste mesmo texto ali de cima segundo outro cara, Andy Pratt, que pesquisa a solidão urbana na Universidade de Londres, existem até evidências de que pessoas que vivem e trabalham em prédios altos tem mais risco de depressão.

O que torna a solidão epidêmica preocupante é exatamente isto. Afinal de contas é só uma questão de tempo antes dela se tornar depressão, por exemplo. Segundo um estudo de 2010 da Brigham Young University, ela tira uns 15 anos de vida das pessoas e está relacionada com problemas cardíacos, derrames, câncer, insônia, abuso de drogas e declínio mais expresso de faculdades mentais com o passar dos anos.

Pra ter ideia do horror, a primeira vez que eu ouvi falar nos problemas que a solidão tem causado na nossa sociedade foi naquele mega estudo de Harvard (o mais longo já feito) sobre felicidade. Eu lembro que dois dos vários indicativos de felicidade que eles encontraram eram gratidão e bons relacionamentos. Lembro, também, do pesquisador dizendo que a solidão mata tanto quanto tabagismo e alcoolismo. Acontece que, na época, eu era solitária E fumante e isto me deixou bastante assustada e me fez cogitar o lifestyle “correr atrás de macho tacanho” só pra evitar a infelicidade e amargura que me tinham sido prometidas pela minha solidão.

A verdade é que minha leitura tosca não me permitiu entender que bons relacionamentos são outra coisa, uma coisa que eu sempre tive.

Um dos meus amigos mais próximos é totalmente contrário ao casamento. Não crítico, contrário, mesmo. Um dos argumentos dele é o fato de que a maior parte das pessoas enfia sua solidão nos relacionamentos afetivo-sexuais e isto torna totalmente inviável um casamento saudável e feliz. E, incrivelmente, a maior parte das pesquisas que li sobre solidão corroboram o que ele diz.

Segundo elas, a maior parte da solidão entre adultos não vem dos solteiros, mas dos casados. E os casados costumam ser mais sozinhos que os solteiros porque os solteiros costumam ter uma rede de apoio e afeto mais consistente. Ou seja, o problema de vários casados é, de fato, se isolar no relacionamento. Só que, lembrando Belchior, “a vida é realmente diferente, a vida é muito pior” e, segundo alguns comentários, este isolar-se às vezes acaba com o relacionamento mas raramente com a solidão.

Além disto, a medida da solidão é extremamente subjetiva. Como disse o Octavio Paz (cito de memória) a solidão é a mais profundamente humana das condições porque só os humanos sabem que são sozinhos. Então, por exemplo, segundo um censo realizado no ano passado, 1 em cada 2 americanos se definem como solitários. Pros pesquisadores deste censo (a galera das ciências sociais), a definição de solidão é: sentir-se sozinho. Juro que é subjetivo assim, até porque os valores não são fixos. Ou seja, solidão é um estado emocional criado quando as pessoas tem contatos e relacionamentos em menor quantidade ou de maneira mais precária que gostariam. E o gostar é mutável, pessoal e intransferível. O que também pode querer dizer que pessoas casadas talvez se sintam mais sozinhas por princípio e por isto é que se casam. Mas esta é uma inferência minha.

Só que, como eu falei no começo, este é só um dos aspectos da solidão. E a solidão que eu gosto, claro, não é a mesma que é considerada uma epidemia do mundo moderno e que eu passei a conhecer morando no centro de SP. A solidão na qual eu nasci e me formei sendo quem eu sou talvez se aproxime mais da imagem de pampa, vasto vazio, do Vitor Ramil:

“O pampa pode ocupar uma área pequena do território do Rio Grande do Sul, pode, a rigor, nem existir, mas é um vasto fundo na nossa paisagem interior.”

Curiosamente o pampa sempre foi uma imagem mental recorrente pra mim quando, nestes primeiros tempos de solidão lancinante do centro de SP eu pensava com saudades do RS. Curiosamente porque eu só estive no pampa de passagem, nasci e sempre morei em Porto Alegre, afinal. Mas curiosamente, também, porque a minha saudade trazia em si um aspecto solitário. Ainda o Vitor Ramil:

“Ao me reconhecer no frio e reconhecê-lo em mim, eu percebera que nos simbolizávamos mutuamente; eu encontrara nele uma sugestão de unidade, dele extraíra valores estéticos. Eu vira uma paisagem fria, concebera uma milonga fria. Se o frio era a minha formação, fria seria a minha leitura do mundo. Eu apreenderia a pluralidade e diversidade desse mundo com a identidade fria do meu olhar. A expressão desse olhar seria uma estética do frio.”

E talvez meu desespero inicial tenha sido exatamente este: o desespero de uma pluralidade tão potente que, ao mesmo tempo, me sufocava e se impunha pela solidão de ser individual. Acho que a única semelhança entre estas solidões que eu vivi, no final, é o saber-se só. O desconforto e o alívio são processos e, ainda que os pesquisadores queiram tirar a ideia de que eles tem um caráter individual, tem muito de valores projetados.

Já faz algum tempo que não me sinto massacrada pela solidão extremamente profissional e pragmática de SP. De certa forma consegui transpor um pouco do meu pampa para cá: leio, jogo, fico em silêncio, abraço um gato e aproveito o que a solidão tem para me dar. E eu quero receber. E faço isto sem ficar tão perplexa nem achar que preciso mudar para caber neste novo e frenético lifestyle. Nesse processo acho até que criei e vivo uma terceira solidão que traz um pouco das duas anteriores, a sofrida e desejada.

A verdade é que a solidão, infelicidade e o desamor são processos tão complexos quanto a socialização, a felicidade e o amor.

E se vocês pararem pra pensar, solidão é um tema quase tão frequente no cancioneiro popular brasileiro quanto amor. Dentro da essência de povo contraditória que nós temos, solidão aparece como uma característica nem sempre negativa e que vai além do pampa ou do centro de SP.

Mas se eu quisesse falar de uma ou de outra poderia citar Caetano Veloso, Vinícius de Moraes, Criolo, Vitor Ramil, enfim, uma galera.

E faz, mesmo, sentido que as contradições formulem nossa identidade nacional e não vejam na solidão só uma prisão, mas às vezes também um descanso.

Toda esta conversa, inclusive, me fez lembrar de um dos meus poemas favoritos: Danse Russe (infelizmente não conheço nenhuma tradução), do William Carlos Williams. O poema, que destoa totalmente do resto da obra dele que eu conheço, conta sobre a outra pessoa do narrador, que é casado e tem um bebê. É aquela pessoa que guardamos pra nossa solidão, que não ousamos ser nem com quem amamos, a pessoa que só é possível ser quando a esposa, o bebê e Kathleen estão dormindo. A pessoa que dança nua, de maneira grotesca, na frente do espelho enquanto repete “eu sou sozinho, sozinho, eu nasci pra ser sozinho, sou melhor assim.”

E chegamos em uma quarta solidão.

De toda forma, o texto de hoje não é daqueles que terminam com uma frase de efeito definitiva, uma conclusão, um ensinamento nem uma profecia porque, do alto da minha solidão, me sinto inapta a percorrer (sequer conhecer) todas as demais. No final é como diz a frase mais famosa do famoso Guima (Guimarães Rosa), “Eu estou só. O gato está só. As árvores estão sós. Mas não o só da solidão: o só solistência”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s